sábado, 19 de agosto de 2017

Meu bem, meu B.

Como se fosse possível
Como se fosse verdade
Nossas pernas enroscadas
Num ameno inverno de agosto
Enquanto viramos brasa 
Você me querendo até onde pode alcançar
Eu lhe querendo até me cansar 
Seu cheiro acasalando com o meu
As trilhas das minhas unhas nas suas costas
ornamentando os sinais da sua pele
Delicadamente sinalizando 
que eu caí de novo
Tropecei no seu discurso 
de homem ambicioso
Dei de cara com a sua cara
Sua respiração embalando a minha
Enquanto eu me tornava sua
No único momento que lhe sinto meu
Suas mãos buscando lugares secretos
Minha boca ansiando pelo gosto predileto
O sal da sua pele
Sua essência de homem 
confundindo-se com o aroma do seu perfume
Eu sou louca por você
Mas você não releva os meus dramas
E revela ser tão frio 
quando não está sob meus dedos
Anunciando que sua precisão de mim 
é somente epidérmica
Sendo que eu abri minhas pernas 
e minha vida para você, que não me lê
Que não se deixa ficar e não me deixa ir
Você que me toca e me assopra 
como quem beija uma flauta doce
Me enleando
Me tomando
Me desejando com força
Como se você um dia me olhasse
E enxergasse além 
da menina que ri e bebe e rola com você na cama.


sábado, 5 de agosto de 2017

Quis tanto ser sua, mas não foi possível querer por você

Fingirei que não aconteceu nada 
Que essa história estacionou há meses atrás
Mas há dois dias você ressurgiu
Esquecendo as mágoas
Você sempre esquece tudo o que causa
Queria ter sido indiferente
Ter lhe ofertado o meu silêncio
Mas nesses meses todos
Seu nome não se afastou da minha boca
E nem o nosso calor dos meus pensamentos
Ontem eu passei o dia com náuseas
Com dores imaginárias
Não consegui comer
Havia pedras no estômago em vez das borboletas
Algo assim não poderia ser bom
No entanto, escolhi as roupas para ir te ver
Perfume
Batom
Só não consegui escolher o rosto que te olharia
Se com as mágoas que você esqueceu
Se com paixão por tudo que já vivemos
Não foi preciso escolher
Você me esqueceu
Ontem você me esqueceu
Há dois dias falou da saudade de nós dois
No seu quarto conversando e discutindo
Brigando e se amando
Longe e perto
Frio e tesão 
Exatamente nessas palavras
Você só precisava de mim 
para suprir necessidades carnais
Como se meu sentimentalismo 
não adentrasse o pacote
Você me feriu novamente
Pelo menos na minha poesia você não sairá impune
Dessa vez acabou comigo, mas eu também acabei com isso
Sem provar pela última vez do seu gosto
Talvez tenha sido melhor assim 
menos coisas para lembrar e escrever
Senti saudade por indizíveis cinco meses
para você aparecer e arremessar ao chão 
meu coração que eu acabara de colar
Meu rancor será sempre teu, meu amor.




quinta-feira, 20 de julho de 2017

Num sopro de letargia, eu sentia enquanto você abstraía

Enquanto lavo a louça
me pergunto se você pensa
Eu penso muito

Sua mão na minha perna
no caminho da sua casa
Você cantando alto no carro
E sorrindo como quem sabia 
que podia dilacerar minha pretensão

Os meses correram 
e eu te vi parado na faixa de pedestre 
com outra mulher no carro
Talvez com a mão acariciando as pernas dela

E é tudo tão fugaz 
Como se nós não tivéssemos acontecido
E você não tivesse repetido dezenas de vezes que
Gosta do meu gosto
Gosta do meu cheiro
Gosta do meu jeito

Pois sempre haverá 
outros gostos e cheiros e jeitos

No outubro passado 
você me enviava mensagens 
todas as noites dizendo me querer
Ansiando minha presença 
Como se somente eu fosse capaz de preenchê-lo

No último março você sentia a minha falta
Falta dos filmes franceses que lhe apresentei
Falta de tudo

Mas dissipamo-nos entre palavras
Você só me queria 
até onde pudesse vulgarizar 
todos os atos e sensações

Você soube dos outros homens que me feriram
Que me congelaram no tempo
Você me convidou para conhecer o fogo
Quando me aqueceu
Você assoprou o fósforo.






sábado, 3 de junho de 2017

Ontem à noite, a noite tava fria, tudo queimava, nada aquecia.

Você me causou danos irreparáveis
E te ver naquele breu noite passada
Desenraizou sensações profundas em mim
Enquanto Humberto Gessinger cantava
Que aquela noite, aquela noite estava fria
Tudo em mim doía
Eu gostei tanto de você, Dionísio
Para terminar assim
Me faltando luz, palavras e sossego
Você me olhou 
como quem olha e se arrepende 
um nanossegundo depois
Eu te acompanhei de fita
Vi você me ver fingindo que não via
Vi você destilar encantamentos em outros ouvidos
Vi uma mão pousar na sua perna
Outra mão acariciando seu ombro
Vi você tentando ser grande
Mesmo sendo tão parco e diminuto
Vi as luzes daquele bar refletindo  
sua beleza ascendente
Me vi caindo
Por que você não vê?


Título: Piano bar - Engenheiros do Hawaii

segunda-feira, 29 de maio de 2017

E vai ser apenas um incômodo primaveril

Depois que eu comecei a estudar Letras
Me sinto menos poética
Atrevo-me a dizer que meu eu lírico
Saiu para passear e perdeu o rumo de casa

São tantas teorias 
querendo desmascarar a utopia

Os versos decassílabos
São chatíssimos quando paramos para contar
E os docentes tão insensíveis

Se lerem isso
Bem capaz de eu perder 1,5 
só pela minha ousadia
De achar que escrevo alguma coisa

Eu perdi a paz
Eu perdi você
Foi por causa dos meus lábios desidratados?
Ou foi por que você não suportaria 
se preocupar com outro umbigo além do seu?

Você me perdeu
Por que eu sou fantasiosa demais?
Ou por que quis me perder?

Noite passada eu chorei
Encontrei um livro rasgado
Depois chorei porque meu coração 
está do mesmo estado

Eu finjo todos os dias desde aquele dia
Digo que não foi nada além de uma expectativa boba

Mas você tripudiou
lançou seu silêncio com tanto desdém

Eu quero esquecer
Parar de escrever sobre isso

Eu quero poder caminhar na rua da sua casa
Sem lembrar que lá é a sua morada
Eu quero fazer aniversário não sabendo 
que você também faz no mesmo dia

Eu quero fechar os olhos e apagar tudo
Eu quero não desviar assuntos e poemas
em direção a você.





segunda-feira, 22 de maio de 2017

Me morde, me assopra. Me faz de abrigo.

Segure minha mão
Vamos sentar naqueles degraus gelados
Você não consegue parar de falar 
E eu vou me apaixonar de novo

Suas pernas tatuadas emboscaram
minhas pernas pálidas

Os mesmos olhos de azeviche 
outra vez
Meu encantamento noturno

Continuamos a percorrer essas ruas largas
Não larga a minha mão

Fale sobre Montessori
Sobre a minha poesia
Fale sobre o quanto as árvores parecem mais bonitas 
nas estradas quando você vem me ver

Quero te levar na feira
Comprar tâmaras de manhãzinha 
na praça central

Me beija
Deixa-me dizer a eles 
que vou te casar comigo

Meu menino
Meu João.



quarta-feira, 3 de maio de 2017

É bom se lembrar de respirar de novo, de novo.

Tu és a minha paixão favorita
Te escrevi versos silenciosos e gritantes 
Durante esses dois anos

Te envolvi na minha esperança de reciprocidade
Te banhei na mitologia
Te chamei de Dionísio
E hoje tu nem lembras o meu nome

A fachada da loja que tanto citei nos meus poemas
Hoje é de outra cor
E não me dói mais
Mas é tudo tão estranho

Eu acho que vou te querer toda minha vida
Quando estiver gostando de alguém 
E não mais escrever

E todas as vezes que um cara me magoar
Vou continuar lembrando de ti
Como alguém que soube me olhar de verdade
E me despiu dentro daquele bar abarrotado de gente
Somente por me reconhecer tecelã mulher poesia

Tu me tocaste
E ninguém vai saber o quão inteira fui na ilusão que eu sentia

Teus olhos ainda são os mais lindos dessa cidade

Feliz aniversário, meu bem.