sábado, 25 de novembro de 2017

Fui te procurar na rua e meti a cabeça no poste

Se você estiver lendo isso
Quero que saiba que lembrar de você
É tão bom quanto salpicar coco ralado numa cobertura de chocolate
do bolo que fiz há pouco
Lembrar de você me remete aos tempos de ingenuidade
Tempo que eu era capaz de entregar uma carta dentro de um bar
Carta que guardei por meses dobrada várias vezes ao meio 
A dor, ela não se resume ao vê-lo beijando várias pessoas 
enquanto tenta ser grande
Nem em olhar as suas fotografias no instagram 
e imaginar que nossos filhos teriam olhos lindos se puxassem a você
Ao menos, se eu quisesse ter filhos
Esse sentimento difundido erroneamente 
que faz eu lembrar você quando alguém me magoa por querer 
Pois você só me magoou porque permiti
E voltar atrás é irremediável 
Pois não sou mais a garota entrando pela primeira vez naquele bar
E você não é Dionísio e seu nome é impublicável 
Você era o homem mais bonito da cidade para mim
Mais bonito do que o pôr do sol que seus olhos capturam 
junto da câmera do seu celular a cada fim de tarde
Mais bonito do que sua luta por justiça em voz daquele estrangeiro
Você era bonito para quem o visse através dos meus olhos
Para quem o lesse na minha poesia
Hoje você é só apenas um rosto saturado 
em meio aos transeuntes 
Conhece músicas boas
Leu bons livros
Está engajado na política 
Torce por um time de futebol
Você é só um babaca bem informado
Com lindos olhos verdes - sempre bom lembrar disso
Gosto de lembrar de você pois ajudou-me 
a aprimorar minha capacidade de construir bons versos
Veja só, construí um castelo para um príncipe pequeno.


Título: A Grandiosa, Adélia Prado. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Você me despetalou, mas esse amarelo não sai de mim

Eu não consigo mais escrever
Mas daí vou ao supermercado 
e sinto falta de ter alguém para me ajudar 
a escolher boas cebolas
Penso em você
Mas você não sabe escolher nada
Eu sei disso, porque você não me escolheu
Naquela tarde ao atravessar a rua 
tão bruscamente 
E me deparar com você, que não não sabia 
como me olhar
Eu te olhei por dentro e concluí
Você cresceu demais em mim
Igual àquelas florzinhas amarelas 
que se expandem em meio ao capim
Você forrou 
a minha cabeça
o meu estômago
o meu coração
Com florzinhas amarelas
Você quis ser mais que o Sol
Sua ânsia de reluzir tudo
Fez-me esquecer que posso brilhar também
Mas você precisa cintilar sozinho. 



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A carta que eu jamais enviaria

Eu gosto da sua despretensão calculada ao me enviar uma mensagem, do jeito que as frases escolhidas parecem um vírus cibernético. Quando você me esquece por semanas e ressurge justo na semana que pensei demais em você, como se adivinhasse minha precisão do seu toque. Eu gosto de te ver sentado na cama enquanto tenta defender seu caráter que todos veem corrompido, você se explica, se ensina pra mim, diz que se importa com o que eu penso. Mas só em relação a sua imagem. Você fala, debate e filosofa. Mostra que sua ambição hoje se sobressai acima de qualquer mero desejo. Porém, me deseja até eu queimar nos seus lençóis. Eu ardo. A vida nesses momentos fragmentados ao seu lado é árdua. Eu gosto dos seus dedos entrelaçados nos meus enquanto nos abraçamos na horizontal. Gosto quando beija as minhas costas de um jeito terno, como se fosse possível eu eternizar tudo isso. O que você pensa quando eu vou embora? Eu penso no quão louco é eu ser amante de um cara solteiro. Meu cheiro alguma vez já ficou na sua cama? Eu queria ficar lá até o dia raiar. Eu gosto do tom da sua voz quando ri, gosto da minha risada quando rio contigo. É como se eu te conhecesse de verdade, mais do que consigo ver e mais do que você se permite dizer. Eu gosto quando se preocupa se vou bater a cabeça na madeira da cama e numa doçura sem igual, ajeita meu travesseiro. Queria congelar isso. Mas nosso fogo queima tudo. Você é amável demais para quem age com tamanha aspereza. Eu gosto da paz que sua respiração me passa ao te sentir envolto em mim enquanto dorme. E eu não consigo dormir, preciso aproveitar isso. Se eu te contasse tudo o que penso seria mais um alimento para o seu medo, para o seu ego. Dá tanta vontade de te atropelar com minhas ideias e gostos e visões de mundo, dá tanta vontade de te mostrar que minha passionalidade vai muito além do que você mensura. Você não sabe de nada, meu bem. Bem que podia saber e não sumir e não temer. Bem que podia gostar de mim como diz e me mostrar. Deixa eu saber que você gostou mais do que eu de tudo o que fizemos semana passada. Me envia uma mensagem de bom dia, me queira no final de todos os dias. Como se não houvesse outras mulheres mais bonitas e mais interessantes. Me queira bem, pra eu nunca mais querer ninguém. Outras mãos no meu corpo não conseguiram abrasar meu coração. Seja meu amigo, dividindo receios e orgasmos. Você esmigalha os cantos do meu cérebro quando diz certas coisas e afaga sem querer a minha alma. Me acalma. Queria dizer de um modo sútil que ser sua válvula de escape a cada duas semanas, uma vez por mês, me faz desacreditar nos mistérios da vida e que só corremos para o que nos deteriora porque no final da noite gostamos de culpar o destino. Você tem medo de que isso vire outra coisa. Eu tenho medo de que seja apenas isso. Mas quem sabe, quem sabe um dia você me olhe e enxergue mais do que a menina que ri e bebe e rola com você na cama. Seus projetos de vida não deveriam afastá-lo de alguém que lhe quer bem, admiro seu autocontrole de manter-se afastado, de criar desculpas porque no fundo não consegue gostar de mim como eu gosto de você. Te enviar sms de madrugada falando em paixão é uma das coisas que você não sabe lidar e você mastiga e cospe o que não sabe lidar. E me julga louca-intensa-passional, mal sabe que desde que descobri gostar de você no último dezembro eu tenho me compactado para caber dentro de uma caixinha que pareça ser o mais leve possível só para você poder me carregar no bolso. Uma caixinha de fósforos. Mas você nem fuma. 

Setembro 2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Numa barbárie eles se esbarraram no bar

                                                                                       Conto baseado em um antigo poema autoral


  Verdes, os olhos de pupilas dilatadas a encarando do balcão no canto do bar. E os olhos dela, tristes. Mas ele naquela mísera luz não teve olhos para ver. O deslumbramento e o álcool anuviam tudo, não é mesmo? Torcia ela para que ele fosse mais do que um adorno do ambiente. Almejava ele que ela fosse o troféu da noite. Entre olhares minuciosos e gestos impalpáveis, saíram os dois pisando em cacos de vidros na calçada, como quem pisa em estrelas. No caminho até o ponto de táxi, ela sentia os olhares dos bêbados e das putas da cidade sobre os dois juntos, inacreditando na exatidão daquela imagem. Ela possuinte de cabelos negros, tão pálida e desarticulada, com um dos homens mais bonitos da cidade. O mais bonito para ela. E considerava isso há anos.
   Quebrando o silêncio após escutar a torneira jorrando água, ele disse que gosta tanto de ver a chaleira chiar. Como se com ele conversasse, contando-lhe urgências... Ele desencaminha o assunto para objetos externos, ganhando o tempo dela, que prepara o seu café, tentando lhe devolver o foco. Precisava destilar o álcool que bebera em algo forte, porém sereno. Ele a olha como quem quer tudo, mas ela só quer umas poucas palavras. Já passa das três da madrugada e ele agora troca o hálito do ar com o seu cigarro caro. Pergunta se ela tem por hábito recolher estranhos em bares lotados e preparar-lhes um café no cinza das horas. Ela disse que já o conhecia, de alguma avenida, daquela loja de tintas, quem sabe, talvez de outra louca vida. 
   Ele proferiu que louca é ela, e riram. Riram como quem pisa mesmo em cacos de vidros. Falou que o café estava amargo e pediu papel e caneta, colocou um bilhete em suas mãos e saiu sem dizer nada. Ela num espasmo leu "o demônio que habita em ti, já morou em mim'', uma cena quase que baudelairiana. A partir daquele momento, ela poderia persegui-lo em todos os bares mais ínfimos, para vê-lo, corrompendo outras moças estonteadas, mas apreciadora de um bom drama. Escreveu o nome dele na sola do seu sapato favorito e voltou para o bar. Essa noite ela vai dançar até ele se apagar dela.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Se você gostasse de mim, eu saberia

Eu o vejo dormindo ao meu lado 
e não consigo tirar as mãos de você
O cabelo macio
O shampoo cheiroso
O montão de pintinhas nas suas costas
Nossos dedos entrelaçados enquanto assistimos tv
A sua risada
Tudo
Tudo que vem de você 
me pede um pouco mais de atenção 
Até as batidas do seu coração acelerado após o sexo 
eu pude sentir com mais exatidão ontem
Como se tudo virasse poesia na minha cabeça
Nossas bobagens
Você me apertando
Eu lhe fazendo cócegas 
A minha birra temporária
Você dizendo gostar de mim
e eu querendo saber como
Você diz que gosta do seu jeito
Eu não entendo
Mas volto sempre para a sua cama
E me despeço de mim.




sábado, 19 de agosto de 2017

Meu bem, meu B.

Como se fosse possível
Como se fosse verdade
Nossas pernas enroscadas
Num ameno inverno de agosto
Enquanto viramos brasa 
Você me querendo até onde pode alcançar
Eu lhe querendo até me cansar 
Seu cheiro acasalando com o meu
As trilhas das minhas unhas nas suas costas
ornamentando os sinais da sua pele
Delicadamente sinalizando 
que eu caí de novo
Tropecei no seu discurso 
de homem ambicioso
Dei de cara com a sua cara
Sua respiração embalando a minha
Enquanto eu me tornava sua
No único momento que lhe sinto meu
Suas mãos buscando lugares secretos
Minha boca ansiando pelo gosto predileto
O sal da sua pele
Sua essência de homem 
confundindo-se com o aroma do seu perfume
Eu sou louca por você
Mas você não releva os meus dramas
E revela ser tão frio 
quando não está sob meus dedos
Anunciando que sua precisão de mim 
é somente epidérmica
Sendo que eu abri minhas pernas 
e minha vida para você, que não me lê
Que não se deixa ficar e não me deixa ir
Você que me toca e me assopra 
como quem beija uma flauta doce
Me enleando
Me tomando
Me desejando com força
Como se você um dia me olhasse
E enxergasse além 
da menina que ri e bebe e rola com você na cama.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Num sopro de letargia, eu sentia enquanto você abstraía

Enquanto lavo a louça
me pergunto se você pensa
Eu penso muito

Sua mão na minha perna
no caminho da sua casa
Você cantando alto no carro
E sorrindo como quem sabia 
que podia dilacerar minha pretensão

Os meses correram 
e eu te vi parado na faixa de pedestre 
com outra mulher no carro
Talvez com a mão acariciando as pernas dela

E é tudo tão fugaz 
Como se nós não tivéssemos acontecido
E você não tivesse repetido dezenas de vezes que
Gosta do meu gosto
Gosta do meu cheiro
Gosta do meu jeito

Pois sempre haverá 
outros gostos e cheiros e jeitos

No outubro passado 
você me enviava mensagens 
todas as noites dizendo me querer
Ansiando minha presença 
Como se somente eu fosse capaz de preenchê-lo

No último março você sentia a minha falta
Falta dos filmes franceses que lhe apresentei
Falta de tudo

Mas dissipamo-nos entre palavras
Você só me queria 
até onde pudesse vulgarizar 
todos os atos e sensações

Você soube dos outros homens que me feriram
Que me congelaram no tempo
Você me convidou para conhecer o fogo
Quando me aqueceu
Você assoprou o fósforo.






sábado, 3 de junho de 2017

Ontem à noite, a noite tava fria, tudo queimava, nada aquecia.

Você me causou danos irreparáveis
E te ver naquele breu noite passada
Desenraizou sensações profundas em mim
Enquanto Humberto Gessinger cantava
Que aquela noite, aquela noite estava fria
Tudo em mim doía
Eu gostei tanto de você, Dionísio
Para terminar assim
Me faltando luz, palavras e sossego
Você me olhou 
como quem olha e se arrepende 
um nanossegundo depois
Eu te acompanhei de fita
Vi você me ver fingindo que não via
Vi você destilar encantamentos em outros ouvidos
Vi uma mão pousar na sua perna
Outra mão acariciando seu ombro
Vi você tentando ser grande
Mesmo sendo tão parco e diminuto
Vi as luzes daquele bar refletindo  
sua beleza ascendente
Me vi caindo
Por que você não vê?


Título: Piano bar - Engenheiros do Hawaii

segunda-feira, 29 de maio de 2017

E vai ser apenas um incômodo primaveril

Depois que eu comecei a estudar Letras
Me sinto menos poética
Atrevo-me a dizer que meu eu lírico
Saiu para passear e perdeu o rumo de casa

São tantas teorias 
querendo desmascarar a utopia

Os versos decassílabos
São chatíssimos quando paramos para contar
E os docentes tão insensíveis

Se lerem isso
Bem capaz de eu perder 1,5 
só pela minha ousadia
De achar que escrevo alguma coisa

Eu perdi a paz
Eu perdi você
Foi por causa dos meus lábios desidratados?
Ou foi por que você não suportaria 
se preocupar com outro umbigo além do seu?

Você me perdeu
Por que eu sou fantasiosa demais?
Ou por que quis me perder?

Noite passada eu chorei
Encontrei um livro rasgado
Depois chorei porque meu coração 
está do mesmo estado

Eu finjo todos os dias desde aquele dia
Digo que não foi nada além de uma expectativa boba

Mas você tripudiou
lançou seu silêncio com tanto desdém

Eu quero esquecer
Parar de escrever sobre isso

Eu quero poder caminhar na rua da sua casa
Sem lembrar que lá é a sua morada
Eu quero fazer aniversário não sabendo 
que você também faz no mesmo dia

Eu quero fechar os olhos e apagar tudo
Eu quero não desviar assuntos e poemas
em direção a você.





segunda-feira, 22 de maio de 2017

Me morde, me assopra. Me faz de abrigo.

Segure minha mão
Vamos sentar naqueles degraus gelados
Você não consegue parar de falar 
E eu vou me apaixonar de novo

Suas pernas tatuadas emboscaram
minhas pernas pálidas

Os mesmos olhos de azeviche 
outra vez
Meu encantamento noturno

Continuamos a percorrer essas ruas largas
Não larga a minha mão

Fale sobre Montessori
Sobre a minha poesia
Fale sobre o quanto as árvores parecem mais bonitas 
nas estradas quando você vem me ver

Quero te levar na feira
Comprar tâmaras de manhãzinha 
na praça central

Me beija
Deixa-me dizer a eles 
que vou te casar comigo

Meu menino
Meu João.



quarta-feira, 3 de maio de 2017

É bom se lembrar de respirar de novo, de novo.

Tu és a minha paixão favorita
Te escrevi versos silenciosos e gritantes 
Durante esses dois anos

Te envolvi na minha esperança de reciprocidade
Te banhei na mitologia
Te chamei de Dionísio
E hoje tu nem lembras o meu nome

A fachada da loja que tanto citei nos meus poemas
Hoje é de outra cor
E não me dói mais
Mas é tudo tão estranho

Eu acho que vou te querer toda minha vida
Quando estiver gostando de alguém 
E não mais escrever

E todas as vezes que um cara me magoar
Vou continuar lembrando de ti
Como alguém que soube me olhar de verdade
E me despiu dentro daquele bar abarrotado de gente
Somente por me reconhecer tecelã mulher poesia

Tu me tocaste
E ninguém vai saber o quão inteira fui na ilusão que eu sentia

Teus olhos ainda são os mais lindos dessa cidade

Feliz aniversário, meu bem.



terça-feira, 11 de abril de 2017

Obrigada, por repugnar meus frágeis sentimentos

   Eu deveria ter pedido para você me escutar naquela noite, sentado ao meu lado na cama. Me escutar como se eu fosse uma pessoa que você acabara de conhecer no supermercado, igualzinho naqueles clichês americanos. Aonde um dos personagens precisa discorrer algo seríssimo, senão explode. Precisava que você me escutasse dizer que eu queria que alguém gostasse de mim sem medo. Sem medo do piegas, sem medo de lembrar de mim no meio da tarde e me enviar uma mensagem, 'lembrei de você e você deve saber'. 
   Eu gostaria de ter dito que mereço mais do que compartilhar risos pós sexo e que quero gostar de alguém sem medo de ser ridícula, eu devia mesmo ter te dito todas essas coisas e ter te tirado para amigo depois de todas as transas fervorosas, porque no fundo eu sabia, você não queria e não podia me dar mais que isso. Mais que suores dissolvidos num disfarce de 'nos vemos durante a semana', sabendo que não nos veríamos não. 
   Você não sabia abreviar a sua vontade de mim me dizendo bom dia, isso não cabe nessa era de sentimentos líquidos, como previu Bauman. E é uma pena. A dúvida do se azucrina a minha cabeça, talvez, se eu tivesse te dito tudo, eu não teria te tirado desse modo brusco da minha vida. A máxima de 'quem se importa procura' é verídica. Eu te tirei da minha vida e você se distraiu demais para me procurar. Sim, no fundo eu sabia.


























Imagem: Tina Maria Elena

domingo, 9 de abril de 2017

Eu esvazio a esperança. Dessa dança eu entendo. Remendo deveria ser meu sobrenome.

Queria não me magoar 
tentando te agredir

Beijando outras bocas 
enquanto você lava os seus lençóis 
para me esquecer depressa

Você não me diz mais nada
Eu também não digo

Ontem li uma frase
Não sei de quem é

Ínfima
Ela me lembrou do
Cansaço de todas as hipóteses

Eu só quero me apaixonar por alguém 
que faça tocar Cyndi Lauper 
dentro do meu coração.

Título: Fábio Chap

quarta-feira, 29 de março de 2017

Me sorria no escuro a tristeza mais ornamental, não é mesmo, Dionísio?

Deu vontade de lembrar
Mesmo que eu escreva coisas indizíveis
ou me repita de novo
Eu sempre decoro com flores e perfume doce
quem me fere com amargura

Eu lembro dos seus olhos cintilando 
na mísera luz daquele banheiro
Enquanto eu lutava para acreditar que realmente
podia te tocar a qualquer minuto

Entre mãos
e braços
Beijos e abraços
Plagiando Leoni
Eu cuidaria sempre de você

Não me importando 
com qualquer paixão primaveril 
que possa me acometer pelo meio do caminho

Aquele Outro 
um dia me perguntou
Se eu iria se você chamasse
Eu iria na hora
Você sabe

Porque só te olhando
eu me sinto viva

Pequena cortesã
de sentimentos majestosos
Assim me faço tua
me sentindo inteira

Na mentira
No desejo
No precipício.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Não usurpe a decência de quem possui um coração

Na cena

A televisão disfarçando a obscuridade do quarto

Lençóis revirados

Ela sentada na cama de costas pra ele

Ele deitado

Percorrendo os dedos pelo pescoço dela

Proferiu: 

Gosto de você! Você sabe, né?

-

Será que ela sabia?  

Mas que gostar é esse? 

Um gostar entre orgasmos somente?

Será que ela sou eu?

Será que Eros olha por nós enquanto eu escrevo essas coisas?

Enquanto ele gosta de um jeito estranho? 

Enquanto ela duvida com veemência?


quarta-feira, 8 de março de 2017

Me chama. Me toca sim, mas me cuida.

Você disse que sentia a minha falta
E eu fui correndo
Pois a minha saudade era tanta
Nos emaranhamos em desejo e ternura
Como se não existisse distância

Seu cheiro de roupa limpa
Sua expressão de sentidos bagunçados
Passear pelo seu corpo
brincando nas sinuosidades

Eu sempre volto pra você
Eu sempre me deterioro por você

Eu apodreço em suas mãos
mesmo que você me colha na hora certa
Nunca serei madura dentro desse declínio 

Você me abraça e o mundo não para
E eu padeço pelo excesso de realidade

Você não é meu

Eu sou a sua pequena, viu?
Você disse isso nos meus ouvidos
e eu consinto

E te sinto,
na medida que você me permite.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Eu continuo dançando sozinha

17 
o número de dias que não nos falamos
Desta vez eu sinto que vai ser para sempre
já que eu disse pra ele fingir que não me conhece
acaso me veja na rua

Ele tirou minha roupa inúmeras vezes
ele tirou de mim a vontade de ser alguém só

Mas estou só agora
no fim de um carnaval fatídico 

Noutrora ele disse que 
eu fazia um grande evento sobre todas as coisas
Vai ver porque não sabia lidar com a minha alma festiva

Eu não podia esperar mais 
do que uma recepção sexualmente calorosa
de alguém que só dormiu do meu lado uma única vez

Sempre havia um porém
Sempre um mas para desestruturar a história

Nunca nos vimos numa festa
no meio de pessoas chatas
Nunca pude sentir ciúmes 
de outra mulher na sua volta

Não que eu quisesse isso
Por mais que eu sinta ciúmes até hoje 
ao saber da sua estadia em sites de relacionamentos fáceis

Mas nunca o vi no meio da multidão 
pra ter certeza que ele era único pra mim

Não lembro da sua altura perto de mim
porque sempre lhe via sentado no banco do carro 
ou deitado na cama

Eu posso lembrar do seu riso
do seu cheiro
e do gosto da sua pele na minha boca

Mas é tudo tão amargo 
quando eu lembro do quanto ele se desfez 
ao destilar seu desdém em poucas palavras

Como se fosse fácil encontrar alguém como eu 
num próximo clique.


Good Lucky



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

...

Não sei aonde você se esconde
quando não lhe vejo em estacionamentos
e correndo no fim de uma sexta-feira quente

Você sumiu dos bares
Das noites
Mas não dos meus poemas

Mesmo que eu conheça cem homens
e escreva sobre mais dez
Nem um possui sua vulgaridade estonteante

Ninguém desperta em mim
essa paixão descomunal

Que faz eu desgostar de Tim Maia
Só por saber que você o escuta 
pensando em outra pessoa

Eu penso em você 
quando algum outro me põe a faca no peito
Corta meu coração a lâmina
somente por não se interessar 
em conhecer a Adélia Prado

Tim disse por você 
que ela partiu e nunca mais voltou

Tim disse por mim 
que meu coração pensa
que não vai ser possível

Mas toda vez que eu olho...








sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A pior forma de solidão é o sexo sem amor

Preciso de um abajur novo. Lembrei que não tenho um abajur. Quando nos beijamos tocou Nando Reis no seu carro. Mas você desligou o som, talvez por achar que era demais pra nós dois. Não queria escrever sobre isso. Mas a música pedia para você cuidar bem de mim, misturar tudo dentro de nós. Depois só pude ouvir sua boca estalando na minha pele. Será mesmo que ninguém vai dormir nossos sonhos? Você some da minha vida e eu sempre torço para ser a última vez. Eu brigo, eu maldigo, peço para você apagar meu número. Duas semanas depois estou lhe procurando bêbada às 6 da manhã. No mesmo dia nos avistamos numa avenida abarrotada de carros e transeuntes. Você não diz nada. Eu juro não lhe querer nunca mais. Mas sonho com você, escuto amigas dizendo que você não me merece, mas que talvez daqui há um mês me procure como se estivesse tudo bem. Você sabe que o tempo não faz as coisas ficarem bem. Já lhe disse isso. O tempo está me dizendo que algum hábito meu o desagradou. Meu hábito de querer atenção.

Título: Nelson Rodrigues



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Solidão é coisa séria e ela também se esconde, não menos esplendorosa, em pequenas e descartáveis histórias como a nossa


Durante o processo de esquecimento 
qualquer mera lembrança 
rodopia 
insinuando-se

No domingo você lembra 
que o jogo de futebol 
do time dele passará na tv

Na segunda-feira um carro 
igual ao dele 
cruza há duas quadras 
e suas pernas recriam um terremoto

Na terça-feira entre às 19 ou 20h 
lembra que ele está na academia

Já na quarta-feira ele deve 
estar procurando algo na Netflix, 
ou no Tinder

Na quinta-feira ele abrevia a cerveja 
com os amigos 
num posto de conveniência, 
percorre a agenda do Whatsapp 
e envia uma mensagem 
para a pessoa mais acessível 
do momento - Já fui essa pessoa

Na sexta-feira você lembra 
que ele vai trabalhar escutando um jazz 
no último volume, 
consequentemente, lembra que 
ele disse um dia 
ter gravado uma playlist 
da Billie Holiday para você, 
mas nunca escutaram juntos

Na madrugada de sexta 
para sábado, você imagina que 
ele pode estar transando 
na garagem de casa 
com alguma mulher 
mais jovem que você - como vocês já fizeram

Toda semana você lembra
Que ele era a sua alma gêmea
- Mas só na cama
E que ele personificou o cara mais maduro 
só por querer ver a sua calcinha
Enquanto você queria que 
ele visse seus poemas
Sem se assustar.



Título: Ele precisava ser longo, pois, Tati Bernardi se doeu ao escrevê-lo por mim.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Ruge pra mim, feito felino. Me fere com a verdade de querer-me na medida do possível.

Eu escorreguei na nudez dele
E meus pés descalços temeram esmagar qualquer chance
De libertação
Que o tatear captasse 
dentro daquele quarto escuro
Dizíamos coisas disformes
Porque não nos importávamos com mais nada
Gonzaguinha poderia rasgar sua voz no rádio
Que continuaríamos inteiros
Dissimulando disfarçando escondendo
Sem revelar jamais
Que poderíamos sim
Caber numa conta de mais
Descendo ladeiras
Vislumbrando um céu de chumbo
Escrevendo sobre a solidão embaixo do viaduto
Em qualquer circunstância
Eu não sei me fazer interessante
para quem me interessa
Quem me despe não me olha
Quem me olha não quer me tocar
Queria que ele soubesse ficar
E fizesse uma planta brotar na minha face
Tão selvagem e impalpável
Áspera e cortante
Só para retratar o contrário 
do que sou por dentro
Por dentro eu sou azul
Ele saberia disso se ficasse.


























Arte: Agnes Cecile

sábado, 14 de janeiro de 2017

Precipita tua fome e reconheça-me como Senhora D. Derrelição. Obscena.

Lembro
Enquanto assisto televisão
Saio para passear
Ou me vejo à toa

Lembro
Do cheiro
Da boca
Das mãos

Do teu peso sobre mim
E da leveza que de mim sai
E paira sobre o ar

Tu pareces
não valer muita coisa
Talvez caiba
no meu orçamento

Diz não ser o homem
que eu penso
Mas eu penso em tantas coisas

Meu interesse se alastra
A repulsa
por essa causalidade também
Meu corpo te quer
Porém, eu cansei de ser
teu subterfúgio

As artimanhas
para me emaranhar nesse desejo
São tão vis quanto deleitosas

Tu sabes como eu gosto
Eu sou mera aprendiz

Me deixa queimar
dentro dessa fixação inflamável
E lembre do meu nome
em meio às chamas

Me chama.


Título: Referência a Hilda Hilst